segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O que aprendi com meu pé de amora.



 
Nota ao leitor: o texto abaixo foge da minha linguagem literária e invade um pouco o meu cotidiano. Eu o escrevi em 18 de julho deste ano, em uma chuvosa manhã. Informo que os dias continuaram chuvosos para mim e o suposto amor da minha vida traiu meus sentimentos como nunca poderia imaginar que o faria. A necessidade e vontade de reler as palavras que escrevi me fizeram compartilhá-lo aqui. E isto surgiu como uma dessas balas de anis que lhe oferecem em algum lugar e você aceita por educação, porém a contragosto. Assim, o amor próprio desce pela minha garganta tão docilmente quanto faria um chá de carqueja com boldo... Esperam que eu melhore, e irei. Mas dói. 

Era uma vez, uma mudinha de amora (tem gente que chama de 'bonsai', mas, pesquisando, descobri que é só uma muda) que comprei numa lojinha de jardinagem, quando fui morar em um apartamento com meu mais recente namorado. Era a única, estava cheia de frutinhos e sendo muito bem cuidada. Quis levar um pouco do que ela tinha para a minha casa: graça, frescor, delicadeza, harmonia... Quis que ela fosse minha companheira naquela aventura. Eu, que desconhecia o que viria adiante, pensava sempre como se tudo fosse eterno, imaginando aquela pequena muda como uma já desenvolvida arvorezinha, no canto da nossa varanda a adoçar nossas bocas com seus frutos.

Convivendo com ela, descobri que, como ao lidar com qualquer ser vivo, muitos cuidados deveriam ser tomados... mas isso não era um problema. Ela estava sempre linda. Aos poucos, embora eu fizesse tudo dentro dos conformes, não estava mais sendo capaz de mantê-la viva e feliz como era antes. Ela simplesmente secou, os galhos murcharam, suas folhinhas caíram de uma vez, os frutos foram parar na terra e nunca mais nasceram. E eu me perguntava o que estava havendo...
Eu a regava, cuidava da terra, conversava com ela todos os dias... e nada. Será que era o vaso pequeno? Será que ela não tomava sol o suficiente? Será que era o vento? Virei quase uma expert em amoreiras, mas não resolvi o problema da minha plantinha.

Um dia, da mesma forma que a vida da amoreira foi se esvaindo, meu coração não mais deu seus frutos. Percebi que estava sofrendo, que eu não estava sendo bem cuidada, que eu estava virando uma pessoa seca e amarga, por conta daquela minha vivência. O que deveria ser o paraíso para uma sonhadora apaixonada como eu, virou o começo de um inferno que eu não queria conhecer. E, assim, eu fui embora de onde morava com o amor da minha vida. Deixei a varanda e os sonhos por lá mesmo e trouxe meu pé de amora comigo, embora achasse que ele já tivesse morrido junto com tudo aquilo que tinha construído para dar certo e, num piscar de olhos, arruinou-se. Eu desisti do caminho que estava seguindo, mas não desisti de cuidar da minha plantinha. Ela não me dava nada em troca do zêlo, mas eu queria me doar para ela. Pelo menos para ela, agora.

Depois que perdi minha casa e meu amor, por alguns dias, perdi também o ânimo, a vontade de sorrir, o brilho nos olhos. E a única coisa que eu podia dar de mim a qualquer um eram as lágrimas. Encontrei um lugarzinho para a mudinha na janela, junto de outras plantas... E lá deixei. Minha mãe se encarregou de molhá-la todos os dias, como eu já fazia. E só.

Definhei no quarto que eu não queria que fosse meu, esvaziei meu coração, guardei nas caixinhas da minha memória de longo prazo tudo o que eu havia vivido. Dias ensolarados vieram, e eu nem os notei. Empacotar momentos é muito difícil... E transportá-los ao passado é sempre pesado demais. Leva tempo e desgasta... Enfim.

Dia desses, passei pela janela na qual repousava minha amoreira e lembrei de dar uma espiada, esperando ver seus galhinhos todos secos, como nos últimos meses eu via.

Da mesma forma que eu uma ou duas semanas brotaram novas folhas e até um pequeno fruto na amoreira, em questão de um ou dois segundos brotaram lágrimas em meus olhos. Ela está viva. E foi aí que descobri que ter esperança faz as coisas crescerem e que, mesmo quando parecem mortas, elas se reciclam. Descobri que, por vezes, cuidamos das coisas com o maior esforço e mesmo assim elas seca, porque esforçar-se nem sempre basta para que algo se mantenha vivo. Descobri que não podemos tentar reviver folhas que caíram, frutos que morreram, amores que se foram... Descobri que todos nós temos um pouquinho de vegetal: a vida feita de ciclos, mortes, renascimentos, recomeços, novos frutos. Descobri que, o que era um complexo momento para mim, era uma simples troca de folhas para minha muda. Precisamos regar a nós mesmos com um pouquinho de esperança e confiança nos processos naturais, na decomposição, na renovação.

Recentemente, perdi meus frutos e folhas por uma ordem natural das coisas. E, por um instantezinho, achei que minha capacidade de amar (a mim mesma e ao outro), morreria junto com eles. Mas minha amoreira me ensinou que, embora nos atenhamos sempre ao que há por cima da terra, existe ali embaixo, escondidinha, uma forte raiz que a mantém viva o tempo todo.

E a minha raiz é feita de amor. Se espalha diariamente por todo canto, impedindo que haja espaço para nascer mágoa, raiva, ressentimentos e toda a sua toxicidade. Estou pronta para dar frutos outra vez e sou grata à natureza por me ensinar tanto, dia após dia. Quis compartilhar isto com vocês para que todos aprendessem a olhar para suas raízes e se perguntassem:

Com quais sentimentos você alimenta a seus princípios? Quais são as chances de você precisar morrer para alguma coisa e ter forças para nascer de novo? E como você está se cultivando?

Querer florescer e dar sempre belos frutos é fácil. Difícil mesmo é fortalecer e lembrar o que nos mantém vivos, buscando energias para o momento em que morreremos de novo, num piscar de olhos.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Teletourgía.

Os inúmeros PM martelados no cérebro são então salvos por um único AM, suposto indicador de paz interior. Silêncio. Finalmente.
Ela tem estatura baixa, carne rija, bolsas abaixo dos olhos e a inocência foi-se pelo ralo há tempos, embora reste um farelo de candura na forma como exerga o mundo a seu redor.

Despe-se a jovem, mirando-se cuidadosamente, percorrendo-se. Inseguras, as falanges distais, embaladas por um misto de suculência e veludo, analisam cada célula, apreciam e percebem cada invólucro de vida. O calor - líquido - a toca por inteiro, como se sentisse falta do corpo dela, sem muita reciprocidade. Enquanto isso, o aroma das rosas penetra as narinas rosadas e as irrita.
O talhe translúcido e de palidez sublime vela-se no algodão. Sente o solo de mármore ou granito, incerto. Ah, frio.
Satisfeita com o que enxerga por detrás da camada de vapor condensado na imensa superfície de vidro - daquelas perfeitamente polidas e capazes de ferir corações aflitos por meio do que registram as córneas -, inicia a magia de preparar-se para a grande atitude de amor próprio que é o repouso.
Um tempo considerável é dedicado à retirada das impurezas da face, do busto e dos ombros. De todas as águas, colônias e poções dispostas nos mais diversos frascos, escolhe as unhas - ou o que resta delas. A moça sempre escolhe um produto pela sua embalagem e, convenhamos, belíssimos são seus dedos. Também tem um péssimo hábito de utilizar-se das ferramentas menos adequadas para determinados fins. Não importa. Os objetivos chegam às suas mãos, encantados por sua delicadeza agridoce.
Não era o rubro que queria? Agora, o tem, salpicado pelo torso.
Os dentes possuem tonalidade tímida. Entre um e outro, uma camada de intensos sabores diários, talvez nenhum efetivamente sentido. Ardem, simultaneamente, a gengiva e o lacrimal. Eliminar o sujo nunca é impune, seja por matéria ou coração.
Certifica-se de que o cetim acobreado dos cabelos sirva de cortina para as feridas que permitiram vazar seu emocional íntimo e vai deitar-se em seu leito nebuloso.
Ali respira, suspira e sonha: olhos abertos. Uma viva memória de Morfeu - rapaz que a seduz mas não inspira confiança - aproxima-se de seus pensamentos.

... Embora delicie-se ao deitar-se com homens, os tem escolhido muito bem.

Aninha-se então nos braços de Nyx, dama fiel de sua companhia, e divaga incessantemente por respostas a perguntas ainda esboçadas. O vazio a preenche. Paz interior? Silêncio. Moças não são muito de falar verdades umas com as outras.