segunda-feira, 28 de junho de 2010

constatação.

Estou postando novamente hoje, mas não trago uma narração, caros leitores.
Lendo meus posts antigos, como o "sobre a felicidade" do mês de Abril, percebi que buscava por alguém que fosse igual a mim, alguém que me desse valor e que não pertencesse a um mundo "hipócrita, materialista e superficial"... sem ter percebido que essa pessoa falava comigo todos os dias e me punha num pedestal de qualidades, pronto para me reeguer se eu viesse a tombar.
Eu era um pássaro pronto a cair de um ninho e ele me deu asas.
Asas aplumadas de um anjo. Asas que só elas.
A paixão pela noite surgiu; não é mais o meu momento de dor... nunca sorri tanto por paixão em toda a minha vida.
Fiquem tranqüilos. Dentro de mim, há um enorme sopro de ventos capazes de me guiar pelo caminho da felicidade.

Ulular.

O vento soprava translúcido na noite de forma que os pêlos bailassem, refletindo um prateado que não se sabia de onde vinha. O focinho de um couro respingado apontava o norte da bússola de emoções, contudo, faltava-lhe uma figura. Negros os olhos, úmidos derretiam flocos de neve do álgido auge do inverno. Hirtos, os olhos e os membros. Cauda longa a repousar, contornando patas macias. Estava na hora.
Assoma em meio às nuances do índigo, que batalhavam para roubar-lhe o espaço, o augusto e círio astro. E leva o inerte animal a confundir-se, a perder-se nas vias do pensamento quando aquele resolve cuidar um pouco da vaidade e pede emprestado o espelho do céu.
E o lobo uivou para a lua que via, desagregando o extremo do penhasco. Só não me pergunte se mirou ao céu ou se angulou as costas ao mar.

domingo, 27 de junho de 2010

esplendor.

A garotinha tinha crescido o suficiente para que não se iludisse mais. Resolveu manter-se ali, estática, os olhos loucos à procura de um brilho que naturalmente possuíam... e ela não sabia. O firmamento, cansado de ser mirado daquela forma, fora-se apagando entre brumas e um marrom sujo de desencontro para com o olhar da menina. Mas alguém não desistiu dela... alguém esteve lá, também na estaticidade, e manteve-se lá, e não quis sair. Ebúrneo como só ele, o satélite.
As pernas iam fatigando-se pouco a pouco, forçando o rubro tecido a farfalhar até que encontrasse o chão. Sentou-se a garota a encarar a lua, lembrando-se de quando fora chamada de 'estrelinha'. A alcunha jamais a remeteu ao brilho que poderia carregar consigo, mas ao fato de ser exímia companheira da lua.
Abraçada pela emoção de sentir-se cheia de luz, deixou que um sorriso fosse tatuado em seu coração. A estrela d'alva não parecia mais tão próxima daquele imenso ponto de luz no céu... e conseqüentemente as mãos da garota não mais buscavam o coração de um ou outro rapaz que tenha derramado-lhe uma lágrima. Buscavam sorrisos, buscavam olhares, buscavam encontros.
Encontros que por mais dignos de perfeição que pudessem ser, sempre terminariam por incompletos... ao menos uma conclusão chega à mente da menina: os olhos do homem que segurava suas mãos de veludo não buscavam apenas por uma estrela. A garota agora era mais do que isso... era uma lua que resistia às brumas de um coração partido, ao marrom sujo de mentiras. Era uma lua que, com todo seu esplendor, abria os braços para receber mais um apaixonado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

além da lenda.

E lá estava a moça, vestida da mais pura seda branca, em sua cadeira de vime. A cadeira de vime, num alpendre.. e o alpendre a rangir na montanha. Nada mais frio do que esta noite, estejam certos. Cega de destinos, a ninfa já adotava a solidão e a madrugada como companheiras, contentando-se apenas com o lago de estrelas que podia mirar com serenidade.
Noite uma que sobe uma fumaça ao alpendre e a garota vai se certificar em passos silenciosos de que não haviam lhe posto fogo nas toras do alpendre, quando percebe que um círculo de fogo forma-se aos pés da montanha. Que criatura mística, dourada das chamas, diferente era aquela? - pensava.
O ser saltava por entre os lobos e as coníferas que o círculo de fogo abrangia, e por vezes cedia o ombro à uma águia ou outra que decidia disputar olhares com ele. A ave, de certo, perdia o duelo e punha-se a pairar novamente pelos céus.
A bela mulher tinha vista cansada... a paisagem das montanhas jamais havia mudado como naquela noite. Apaixonou-se pela brincadeira entre o homem e os animais, o fogo e a floresta. Desceu para contemplar o rito tão rústico; e o rapaz - com seus cabelos longos, o ouro na pele, nos olhos e rubi nos lábios - perguntou gentilmente se era digno de tanto clarão:
"Senhorita de imensa luz, que vens fazer ao mundo dos reles mortais?"
Sorrindo e trazendo todo o brilho estelar para si, respondeu ela calmamente:
"Áureo rapaz, de que mais preciso se não de tuas chamas a cessarem minhas gélidas noites solitárias? Só reluzo por tua causa, permaneça a uivar com os teus lobos."
O canto dos lobos e das chamas estalando a madeira continuaram...
E quem disse que Lua e Sol nunca poderiam se encontrar?

terça-feira, 8 de junho de 2010

Não é humano errar assim.

Gostaria de poder me trazer nos braços neste momento. Me sinto tão pequena, tão baixa... eu sou o meu único consolo. Meus erros me irritam, me corroem.. não aceito errar. Não é humano errar assim.
Destruindo sorrisos, rompendo fortes abraços, desfiando o cetim na selvageria das minhas garras... imbatíveis. Acontece que ando me arranhando por dentro, tornando-me áspera e cada vez mais fechada. Tenho vergonha de ter a capacidade de abraçar alguém agora. Se não posso ser doce com quem mais precisa da minha delicadeza, com quem mais necessito ser?
Não quero parecer rude, não quero deixar de ser quem eu era. Queria realmente voltar à infância.. só para consertar tudo que fiz de errado. Meus enganos não são comuns... Não é humano errar assim.
Quero fugir do mundo, quero esconder esse monstro que existe dentro de mim... quero que todos entendam que eu não quero destruir tudo... eu só estou passando por uma fase... Aquele Lestat da minha existência, lembram-se?
Suga-me as forças, a doçura, a utilidade. Não me sinto útil; e nem capaz... sinto-me apenas superficial, tonta, idiota como nunca antes.
Agora não adianta mais, estou arruinando meu próprio alicerce. É ingratidão, é desleal errar assim.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

aos analfabetos do sonhar.

Algumas pessoas acabam perdendo o
Brilho no olhar quando se trata de sonhos, simplesmente por terem medo da perda de tempo em um
Caminho mais longo. O que não sabem elas é que me preocupa pensar no fato de que o atalho talvez seja frio e obscuro o suficiente para bloqueá-las, num tal
Drama... temor da vida. Sonhar não é apenas ter
Esperança. É deixar esvairem-se os talvez mais preciosos
Fragmentos de seu âmago, em busca de um sorriso, de algo que compense a perda desses pedacinhos de tesouro que existem dentro de cada um. É deitar sobre a
Grama orvalhada para ver as nuvens... sem visar o
Horizonte por muitos segundos... avaliando as formas claras a fugirem dos olhos, sublimando... deixando a
Imaginação tomar frente de seu momento de reflexão. De que custa sonhar se não se sabe o que pedir aos céus?
Jamais desistir do que diz a mente e o coração é importante, por mais que os não-sonhadores lhe arruínem o dia, pincelando-lhe óleo sobre tela de
Lembranças infelizes suas. Não quer dizer nada, leitor; apenas sonhe sem olhar para trás. A
Miopia psicológica dos que não sonham lhes encurta os braços e os pobres limitados acabam por contentarem-se com o que lhes toca as mãos... como uma ave que desconhece o poder das asas e tomba do
Ninho, levando aos olhos o azul do que poderia ter sido desbravado se tivesse confiado em si mesma.
Observar a natureza é a primeira etapa para dar
Passos firmes pelo caminho mais longo, sem medo das pedras que poderá encontrar,
Questionando se o tropeço é mesmo necessário, visto que pedras também podem elevar aquele que decide por escalá-las, por menores que possam ser. E então surge um
Resquício de sorriso após toparem os pés com o rígido mineral bruto. Vitória... alcança-se o topo do desafio. As
Surpresas vêm concomitantemente com
Torrentes, muito embora só esperemos pelo momento de sorrir. O segredo está em
Usurpar o poder do tempo, mostrando a ele que somos capazes, todos, sem exceção, de preencher
Vazios que só surgiram pela ausência de nós mesmos, como uma
Xenofobia interior, onde o homem, por não perceber o que o rodeia, não alcança um sonho... e ele torna a
Zangar-se.

terça-feira, 1 de junho de 2010

o pincel de um francês.

À espera do lívido eqüino, acariciava as tranças desfeitas com o corpo tornado frente à luz do dia. Folgado estava o espartilho rubro tal qual as maçãs e os doces lábios, estes entreabertos em sinal de conforto. Sobreposta ao espartilho, a bata já amarelada do uso comum, largava os bufantes pelos ombros lisos, de traços delicados, ombros joviais.
Os dedos em ângulo com a mão de pétala, presas aos braços roliços da jovem, intercalavam-se com os extremos inferiores dos fios cúpreos, a fim de desfazer-lhes os últimos nós.
Desenho curvo, sutil, leve... deixava escapar sempre uma ponta de tensão causada pela longa espera, assim como os olhos, realçados por uma gota enamorada de brilho raro.
E assim apoiava-se tranquila a moça, no parapeito da janela... usando-se dos dentes de um pente para mastigar-lhe as borboletas que, em inúmeras batidas de asa por minuto, roçavam-lhe a parede do estômago.