terça-feira, 28 de setembro de 2010

agulha.

"Desejo que todos no mundo possam ter a sorte que tivemos: a de encontrar outra agulha neste imenso palheiro."

Agulha. A.gu.lha. Do latim, acuculus. Pontiaguda ameaça aos corações inflados dos pulmões aflitos do mundo. Semântica e propriamente considerada - nada mais, nada menos (que) - uma hastezinha de aço ou metal aguçada numa ponta e perfurada na outra, utilizada para diversas funções: a mais comum e óbvia delas é a de costurar, fazer com que uma linha capilar preencha um rombo qualquer. Já tocaste uma agulha, leitor?
"Difícil enxergar o pequeno furo pelo qual passa a linha."
"Difícil não confundir os lados quando os dedos a buscam pela penumbra da caixa de costura."
Pois bem. Tenho em minhas mãos o mais precioso instrumento, bem colocado como uma agulha em minha vida. Por muitas vezes pensei que pudesse ser apenas um fio de palha bem resistente, que por ventura pudesse ser confundido. Descobri que não.
Trago comigo o medo de ferir-me e o medo de deixá-la esmigalhar no monte de feno no qual estou languidamente repousando. Nunca soube bem fazer uso das agulhas... mas aprendi sem querer.
Aprendi a ser acariciada pelo toque ardido delas, aprendi a fornecer a elas uma linha mais precisa, aprendi a não submetê-las a força alguma a fim de testá-las... e assim o rombo de minha vida foi se preenchendo, de forma que se eu, um dia, viesse a cair, seria amortecida primeiro pelo peso de uma simples e singular agulha... e não pela palha macia que trago nas profundezas das minhas considerações sociais.
Se hoje posso dizer que sou agulha, sinto-me feliz. E, se sou agulha, tenho por que:

trouxeram-me o mais belo Fio de ouro e me designaram função.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

água doce.

O sussurrar salino penetrava os ouvidos daquela criaturinha - não sei seu nome; mas pelo que há através dos olhos açucarados de céu, acho justo que se chame Dulce. - radiante, inquieta...
mínimos grãos de areia aproveitavam estar sob pés delicadamente nudos para passear entre pequenos trotes e contentes se deixavam levar. Adônis acariciava os caracóis lourinhos a saltitar sobre os ombros já rubros da tarde ensolarada e Dulce corria, corria como se o mar fosse abraçá-la - e iria.
Ia chegando perto da água, que indecisa bailava calma, tal qual criança dividida entre doce e mãe. Os dedos pequenos faziam força na alça plástica de um baldinho, responsável por construir um ou outro sonho de princesa da pequena Dulce, mas logo foram se soltando ao passo que sentiu a areia ceder-lhe uma pegada... estava chegando cada vez mais perto das ondas. Largou tudo.
De cócoras pôde sentir a emoção do mar em revê-la. "Lágrimas, são tantas!" - pensava. Choroso, envolveu a pequenina e se misturou aos olhos dela.
Dulce abriu os braços, as pernas e deitou-se ao embalo das ondas. Essa é sim, a verdadeira estrela do mar.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dissertação.

proposta: Exponha, numa dissertação, suas ideias sobre algumas das principais "afecções" do comportamento humano.

O homem traz consigo mecanismos de controle pessoal, tais como a temperança, a sobriedade e a castidade. Quando esses mecanismos falham no comportamento humano, surgem as afecções.
Segundo o filósofo Baruch Spinosa, o homem pende para situações de desejo extremo ou amor por determinada partícula da vida material, desviando-se de um caminho sublime e correto. Spinosa cita a luxúria, a embriaguez, a lubricidade, a avareza e a ambição como os principais afetos humanos, mas sabe-se que atualmente, no século XXI, os conceitos desses são cosideravelmente diferentes e até ocorre o surgimento de novos. É como ocorre com a luxúria, anteriormente vista como desejo ou vontade extrema da busca por alimento, gula. Já hoje, encontra-se "luxúria" como sinônimo da lubricidade citada por Spinosa, relacionada ao desejo sexual.
A variação das definições de cada afecção (popularmente conhecidas por "pecados capitais") se deve às transformações do mundo, que influenciam o pensamento do ser e, consequentemente, sua maneira de agir diante do que é profano. A partir desse ponto de vista, pode-se concluir que a coerência das palavras puramente racionais de Baruch Spinosa depende da visão ampla de cada ser humano, mesmo que a modernidade e o crescimento do mundo tenham trazido ventos de novos vícios e paixões.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

reflexão interna em nonsense.

Tentei mirar por detrás de minhas profundas pupilas a fim de encontrar alguma lágrima de Mim. É tanto pranto derramado nas mãos, nos travesseiros, na face translúcida que já não calculo quanto de Mim perdi.
A cada vez que choro percebo cor de meu olhar se esvaindo, o sangue - que antes corria por entre os venosos campos - caminhando sem rumo... somente da luz não digo o mesmo. Minha luz jamais se foi, a tenho e transbordo. Unge-me o coronário trazendo esperança, apontando o pedaço de Mim que me falta.
Falta de Mim. Falta de meus dedos carinhosos roçando as seis macias cordas do violão, falta dos sorrisos, falta de meu bailar toda vez que trazia um vestido longo ao peito, falta de meus sonhos cromáticos, falta de minhas tardes de vento.
Encontro cacos de Li por toda parte. Por desilusões? Por dúvidas?
Traz-me, meu anjo terno por quem tanto clamo, traz-me o cálice no qual beberei do arco-íris. Traz-me o pão do qual aproveitarei amor. Traz-me tuas asas... e limpa meus temores.
Confio em ti, tão adorado anjo. Adorado - e distante - anjo...
anjo que unge-me o coronário trazendo esperança, apontando o pedaço de Mim que me falta: o pedaço de ti que falta em Mim.




~ ao meu coração, que vaga há tempos por terras que desconheço. ~