"Desejo que todos no mundo possam ter a sorte que tivemos: a de encontrar outra agulha neste imenso palheiro."
Agulha. A.gu.lha. Do latim, acuculus. Pontiaguda ameaça aos corações inflados dos pulmões aflitos do mundo. Semântica e propriamente considerada - nada mais, nada menos (que) - uma hastezinha de aço ou metal aguçada numa ponta e perfurada na outra, utilizada para diversas funções: a mais comum e óbvia delas é a de costurar, fazer com que uma linha capilar preencha um rombo qualquer. Já tocaste uma agulha, leitor?
"Difícil enxergar o pequeno furo pelo qual passa a linha."
"Difícil não confundir os lados quando os dedos a buscam pela penumbra da caixa de costura."
Pois bem. Tenho em minhas mãos o mais precioso instrumento, bem colocado como uma agulha em minha vida. Por muitas vezes pensei que pudesse ser apenas um fio de palha bem resistente, que por ventura pudesse ser confundido. Descobri que não.
Trago comigo o medo de ferir-me e o medo de deixá-la esmigalhar no monte de feno no qual estou languidamente repousando. Nunca soube bem fazer uso das agulhas... mas aprendi sem querer.
Aprendi a ser acariciada pelo toque ardido delas, aprendi a fornecer a elas uma linha mais precisa, aprendi a não submetê-las a força alguma a fim de testá-las... e assim o rombo de minha vida foi se preenchendo, de forma que se eu, um dia, viesse a cair, seria amortecida primeiro pelo peso de uma simples e singular agulha... e não pela palha macia que trago nas profundezas das minhas considerações sociais.
Se hoje posso dizer que sou agulha, sinto-me feliz. E, se sou agulha, tenho por que:
trouxeram-me o mais belo Fio de ouro e me designaram função.















