segunda-feira, 27 de junho de 2016

Teletourgía.

Os inúmeros PM martelados no cérebro são então salvos por um único AM, suposto indicador de paz interior. Silêncio. Finalmente.
Ela tem estatura baixa, carne rija, bolsas abaixo dos olhos e a inocência foi-se pelo ralo há tempos, embora reste um farelo de candura na forma como exerga o mundo a seu redor.

Despe-se a jovem, mirando-se cuidadosamente, percorrendo-se. Inseguras, as falanges distais, embaladas por um misto de suculência e veludo, analisam cada célula, apreciam e percebem cada invólucro de vida. O calor - líquido - a toca por inteiro, como se sentisse falta do corpo dela, sem muita reciprocidade. Enquanto isso, o aroma das rosas penetra as narinas rosadas e as irrita.
O talhe translúcido e de palidez sublime vela-se no algodão. Sente o solo de mármore ou granito, incerto. Ah, frio.
Satisfeita com o que enxerga por detrás da camada de vapor condensado na imensa superfície de vidro - daquelas perfeitamente polidas e capazes de ferir corações aflitos por meio do que registram as córneas -, inicia a magia de preparar-se para a grande atitude de amor próprio que é o repouso.
Um tempo considerável é dedicado à retirada das impurezas da face, do busto e dos ombros. De todas as águas, colônias e poções dispostas nos mais diversos frascos, escolhe as unhas - ou o que resta delas. A moça sempre escolhe um produto pela sua embalagem e, convenhamos, belíssimos são seus dedos. Também tem um péssimo hábito de utilizar-se das ferramentas menos adequadas para determinados fins. Não importa. Os objetivos chegam às suas mãos, encantados por sua delicadeza agridoce.
Não era o rubro que queria? Agora, o tem, salpicado pelo torso.
Os dentes possuem tonalidade tímida. Entre um e outro, uma camada de intensos sabores diários, talvez nenhum efetivamente sentido. Ardem, simultaneamente, a gengiva e o lacrimal. Eliminar o sujo nunca é impune, seja por matéria ou coração.
Certifica-se de que o cetim acobreado dos cabelos sirva de cortina para as feridas que permitiram vazar seu emocional íntimo e vai deitar-se em seu leito nebuloso.
Ali respira, suspira e sonha: olhos abertos. Uma viva memória de Morfeu - rapaz que a seduz mas não inspira confiança - aproxima-se de seus pensamentos.

... Embora delicie-se ao deitar-se com homens, os tem escolhido muito bem.

Aninha-se então nos braços de Nyx, dama fiel de sua companhia, e divaga incessantemente por respostas a perguntas ainda esboçadas. O vazio a preenche. Paz interior? Silêncio. Moças não são muito de falar verdades umas com as outras.