Ela tem estatura baixa, carne rija, bolsas abaixo dos olhos e a inocência foi-se pelo ralo há tempos, embora reste um farelo de candura na forma como exerga o mundo a seu redor.
Despe-se a jovem, mirando-se cuidadosamente, percorrendo-se. Inseguras, as falanges distais, embaladas por um misto de suculência e veludo, analisam cada célula, apreciam e percebem cada invólucro de vida. O calor - líquido - a toca por inteiro, como se sentisse falta do corpo dela, sem muita reciprocidade. Enquanto isso, o aroma das rosas penetra as narinas rosadas e as irrita.O talhe translúcido e de palidez sublime vela-se no algodão. Sente o solo de mármore ou granito, incerto. Ah, frio.
Satisfeita com o que enxerga por detrás da camada de vapor condensado na imensa superfície de vidro - daquelas perfeitamente polidas e capazes de ferir corações aflitos por meio do que registram as córneas -, inicia a magia de preparar-se para a grande atitude de amor próprio que é o repouso.
Um tempo considerável é dedicado à retirada das impurezas da face, do busto e dos ombros. De todas as águas, colônias e poções dispostas nos mais diversos frascos, escolhe as unhas - ou o que resta delas. A moça sempre escolhe um produto pela sua embalagem e, convenhamos, belíssimos são seus dedos. Também tem um péssimo hábito de utilizar-se das ferramentas menos adequadas para determinados fins. Não importa. Os objetivos chegam às suas mãos, encantados por sua delicadeza agridoce.
Não era o rubro que queria? Agora, o tem, salpicado pelo torso.
Os dentes possuem tonalidade tímida. Entre um e outro, uma camada de intensos sabores diários, talvez nenhum efetivamente sentido. Ardem, simultaneamente, a gengiva e o lacrimal. Eliminar o sujo nunca é impune, seja por matéria ou coração.
Certifica-se de que o cetim acobreado dos cabelos sirva de cortina para as feridas que permitiram vazar seu emocional íntimo e vai deitar-se em seu leito nebuloso.
Ali respira, suspira e sonha: olhos abertos. Uma viva memória de Morfeu - rapaz que a seduz mas não inspira confiança - aproxima-se de seus pensamentos.
... Embora delicie-se ao deitar-se com homens, os tem escolhido muito bem.
Aninha-se então nos braços de Nyx, dama fiel de sua companhia, e divaga incessantemente por respostas a perguntas ainda esboçadas. O vazio a preenche. Paz interior? Silêncio. Moças não são muito de falar verdades umas com as outras.