sábado, 21 de agosto de 2010

before&after.

O mármore vibrava em toques espaçados causados pelo salto envernizado trazido aos pés dela. Num único desses espaços, pôde enxergar tudo o que queria naquele momento. Paralizada, admirava os movimentos do rapaz que estava procurando por ela... estava logo ali, bastava-lhe que desse dois passos para estar ao lado dele, mas preferiu deixar com que a imagem se dissolvesse por uma lágrima de emoção. Os cabelos dançavam de um lado para o outro, enquanto ele procurava atentamente por uma mancebinha de cabelos arruivados. Era lindo procurando por ela, mas só precisava se virar para que viesse a encontrá-la.
Tal garota clamou pelo nome do rapaz e ele se virou... e pronto: o coração sofreu segmentação holoblástica desigual. Como ousava ele tomar tão grande espaço de um coração que já tinha dono?
O ambiente parou e em poucos segundos só haviam eles três: coração dele, coração dela e o mármore... este último transpirando por debaixo do salto e do all star.
Cria-se, então, uma atmosfera nostálgica dos tempos em que ambos sentiam vontade de se abraçar e não conseguiam realizá-lo por mais de três segundos. A nostalgia se quebrou com um enlace de consideráveis segundos extras, onde ela seguramente pôde duvidar da realidade.
Se o amava? Não é possível determinar... mas o olhou de forma singularmente pura - e ele sentiu.
O mármore vibrava em pulsos espaçados causados pelo coração trazido ao peito dela. Num único desses espaços, pôde sentir tudo o que queria naquele momento.


... e era ele o que ela queria.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

inner fire.

Consumia em rubro ardor a cabeleira ruiva posta sobre as sofridas toras. A seiva borbulhante não mais aguentava manter-se presa ao lenho que berrava em estalos de calor, escapando pelas extremidades e pingando viscosa no esbranquiçado das cinzas de uma prévia noite aquecida pela fogueira. Entregues, os gravetos cedem ao leito e vê-se a degradação lenta dos finos ramos da madeira.
E o fogo subia transformando, consumindo, bebendo das mutiladas árvores que antes dançavam e transpiravam o sereno das noites na aldeia.
Esvoaçando faceiras, as pequeninas partículas de fuligem salpicavam o ar de magia e os olhos de tudo que tinha vida lacrimejavam da mais pura emoção. Mesmo assim era possível sentir o óculo arenoso, ardente, incômodo, de forma que só cobertos sanava-se a dor. Ninguém o fez. Folhas, bichos, índios, natureza. Ninguém tampou os olhos... para que se visse a beleza do fogo até a última chama a suspirar na madrugada.